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domingo, 28 de junho de 2009

Uma Procissão de São João e o Circo de Soleil


Por Alexandre Moura*

Dia de São João! 24 de julho de 2009. Fui a Olinda ver e acompanhar a Procissão do Santo. Não sou religioso, mas hoje senti a necessidade de estar próximo de algo diferente e concreto relativo à comemoração desse dia. Nada como presenciar um ritual que faz referência milenar a um homem, João Batista, e admirar o mistério da fé do povo. Ao chegar à Cidade Histórica de Olinda, a procissão não estava para sair da Igreja, mas sim da casa de uma senhora devota do Santo. Razão? A Igreja de São João Batista está em ruínas. Parte do telhado desabou, o mato toma conta de todos os lados da construção, tapumes cercam a igreja. Interdição da Igreja! Já pensou? No dia da comemoração do Santo mais popular do Nordeste, nada de igreja aberta para o povo. A rua estava escura, sem iluminação pública, lixo e monturos acumulados nela.

Na tarde de hoje, o padre falou na Rede Globo, a respeito da situação em que se encontra o templo católico e afirmou que só chegou a esta situação em razão do descaso das instituições responsáveis pela conservação dos patrimônios situados na Cidade Alta de Olinda. O Iphan se pronunciou na mesma reportagem e anunciou a liberação de R$90.000,00 para o escoramento do teto e a cobertura provisória do telhado. Isso mesmo, noventa mil reais para fazer esse paliativo. Assim até dá para entender porque deixam a coisa chegar a esse ponto.

Acompanhei, pelas ruas sujas e escuras de Olinda, a procissão que não deixou por isso de ser um ritual admirável. Pessoas com seus cânticos e “lanternas” (velas dentro de garrafas PET cordadas ao meio), a rezar e cantar. Durante o trajeto fiquei a pensar na indiferença das pessoas que estão à frente de instituições públicas em deixar desprezados gente e patrimônios seculares, físicos e imateriais, como a própria procissão: Prefeitura, Iphan, Empetur, Fundarpe e outras tantas foram por mim lembradas.

Pensei também da inversão da lógica da aplicação dos investimentos públicos. Pólos de Forró, a vinda da FENEARTe e do Circo Canadense.

Já estava dado por satisfeito com a noite, quando ainda durante a missa (que foi realizada na Igreja de Guadalupe), surpreende-me o Padre Marcelo quanto à sua crítica ao comparar a falta de atenção das autoridades e das instituições para com a Igreja de São João e, por outro lado, o grande interesse das mesmas com o empreendimento do Circo de Soleil. E mais, o Padre pergunta aos presentes: alguém daqui comprou ingresso para ir a esse circo? Esperou um pouco e indagou: - Ninguém? Continuou: - É, o ingresso custa R$ 250,00, mas sabe quem está financiando a compra dos ingressos? Daí citou os nomes de todos os cartões de crédito, que só rico tem. Comentou ainda: - Mas, as instituições públicas estão dando apoio com recursos públicos a este circo, colocando acima do interesse público o interesse particular, mas a nossa Igreja a deixaram ruir.

Nessa hora fiquei muito feliz! Feliz em saber que naquele local, naquele ambiente aparentemente fora do referido contexto, estava alguém com o mesmo sentimento que nós ambientalistas, cidadãos e cidadãs, que além defesa ambiental pensamos na ética e no respeito às pessoas. Satisfeito por naquele momento ter surgido mais uma voz crítica ao processo hipócrita adotado por instituições públicas e privadas e por pessoas, para trazer um Circo a qualquer custo, que ocupará, alterará e danificará uma área pública de uso público, um Parque Metropolitano com seus atributos ambientais. Era isso que gostaria de registrar desse Dia de São João e finalizar lembrando o que me disse um jornalista esta semana, quanto às obras do Circo: “estamos (ambientalistas e jornalistas) fazendo o que pudemos. Se vamos conseguir alguma coisa, não sabemos, mas temos a certeza de que eles (empresários, “gestores públicos”) saberão que não somos idiotas”.

Recife, Dia de São João de 2009

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*Alexandre Moura é Engenheiro Agrônomo e ambientalista atuante na Associação Ecológica de Cooperação Social - ECOS e da APIME - Associação Pernambucana de Apicultores e Meliponicultores, entre outros espaços da sociedade civil pernambucana. Participou da primeira edição do Festival ministrando a palestra "As abelhas nativas e a conservação ambiental".

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O desafio de nossa geração

Por: Heitor Scalambrini Costa*

Diferente daquele extraordinário 1968, onde idéias e causas libertárias empolgavam boa parte do mundo, e no Brasil a cena dominante era a forte efervescência política questionando a ditadura militar, vivemos nos últimos anos sob a tacanha do pensamento hegemônico, o do neoliberalismo.

Ao governo, na visão neoliberal, cabe criar e preservar certas condições que permitam ao mercado operar. É o capitalismo financeiro determinante dos fluxos de dinheiro, dos lucros obtidos, dos problemas econômicos, das crises dos países. O mercado decide, o mercado determina. É a chamada globalização financeira.

Decorrente da atual política neoliberal o mundo só conseguiu produzir menores taxas de crescimento, maior desigualdade social e crises recorrentes, e que culminaram com os graves problemas enfrentados na atualidade: a recessão-depressão econômica, a insegurança energética e alimentar, e o aquecimento global. E agora, avizinha-se uma conjuntura de desemprego e ampliação da miséria.

Ao longo dos últimos anos os governos adotaram as receitas neoliberais ditadas por organizações dirigidas pelos países centrais, como a OMC, o Banco Mundial e o FMI, no âmbito dos programas de ajustamento estrutural e de redução da pobreza. Em nome da luta contra a pobreza, estas instituições convenceram os governos a executarem políticas que reproduziram e aumentaram a pobreza.

Os ideólogos do neoliberalismo, da desregulação da economia, do Estado mínimo e do laissez-faire dos mercados mentiram para toda a humanidade, prometendo-lhe o melhor dos mundos. Sem essa via não existiam alternativas, diziam. Tudo isso foi agora desmascarado com a explosão mundial da crise econômica e financeira em 2007-2008, mostrando o quão interligadas estão as economias do planeta.

Foram os processos de produção e consumo orientadores do sistema de desenvolvimento dominante, e a idéia de progresso como sinônimo de crescimento econômico, que levaram o planeta a uma situação na qual pode ser gerada uma alteração irreversível no clima, com conseqüências físicas, econômicas e sociais catastróficas para todos os países. Pelo menos, é o que pensam aqueles que atribuem boa parte dos atuais problemas à atividade humana.

Há aqueles ainda, que dizem que nunca antes na história da humanidade tantos viveram com tanta fartura, com tanta longevidade, com tanto conforto e com tantas opções para consumo. Contudo, estes privilegiados são poucos em relação aos mais de 6 bilhões de seres humanos que habitam o planeta na atualidade. Mais de 4 bilhões de pessoas vivem hoje com menos de 1 dólar por dia, segundo dados do Programa da Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), e mais de um terço da população urbana mundial mora em favelas.

Logo, trazer toda a humanidade a um padrão de vida digno, com acesso a alimentação adequada, a saúde, a educação e oportunidades de trabalho é uma questão que passa pela mudança de paradigma, e constitui um grande desafio. Para continuar o crescimento da produção e do consumo atuais, como é proposto pelo modelo vigente, precisaríamos de mais de um planeta Terra; afinal, hoje já são consumidos recursos naturais a uma taxa 30% maior do que a Terra tem condições de repor. Aqui reside o limite do capital: o limite da Terra. Isso não existia na crise de 1929.

A conjugação destas crises e impasses mostra aos povos a necessidade de se libertarem da sociedade capitalista e do seu modelo produtivo consumista. A ligação entre as crises põe em evidência a necessidade de um programa novo, revolucionário e em escala planetária. A humanidade não poderá contentar-se com meias medidas. É preciso arrancar o mal pela raiz. A direção das soluções deve ser no sentido em que elas sejam favoráveis aos povos e à natureza.

O que está em jogo, de fato, é a disposição das sociedades em reduzir e alterar drasticamente a forma de consumo, redefinir o modelo de produção e a idéia mesmo de desenvolvimento; e, em passar a medir o êxito de um país por seus indicadores sociais e ambientais, e não mais apenas por sua riqueza financeira.

Portanto, o desafio que se coloca neste início do século XXI é nada menos do que mudar o curso da civilização. É preciso construir uma nova ordem internacional, que respeite a soberania dos povos e das nações. Deslocar, num curto espaço de tempo, o eixo da lógica “viver é produzir infinitamente e consumir o máximo possível”, que leva à acumulação, para uma lógica em função do bem-estar social, do exercício da liberdade e da cooperação entre os povos.

Há quem diga que um pesado imposto será cobrado das gerações futuras. Essa visão aumenta em muito a responsabilidade da atual geração. É fundamental que outras formas de relação do ser humano com a natureza sejam assumidas e que novas tecnologias, de alta eficiência na utilização de recursos naturais e com mínimos impactos ambientais sejam desenvolvidas e adotadas em larga escala.

Precisamos, sim, valorizar aspectos relativos às questões que sempre foram colocadas pelo ser humano: que sentido tem a vida e o universo, qual é o nosso lugar? Portanto, há que se ouvir mais os que ainda amam a vida e cuidam realmente da Terra.

*Heitor Scalambrini Costa (hscosta@ufpe.br) é físico com doutorado pela Université d'Aix-Marseille III (França) e professor adjunto da Universidade Federal de Pernambuco. Participou da segunda edição de festival, ministrando a palestra "Agrocombustíveis: ameaças e oportunidades".